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Mulheres, precisamos falar sobre cistite

Considerei que precisava falar abertamente sobre cistite porque gostaria que tivessem falado abertamente comigo quando eu sofria disso. E depois de muito tempo de crises, reunindo informações daqui e dali, aos trancos e barrancos percebi que sofri todo aquele tempo por causa da falta de informação.

Porque quando é para falarmos sobre o corpo dos outros ou sobre nossas cirurgias, joelhos, rinite, coluna, catarata, refluxo, safenas e marcapassos entramos nos mínimos detalhes. Mas quando o assunto é a região íntima feminina e os acontecimentos nos arredores, como no sistema urinário, apenas meias palavras. Ninguém quer falar sobre o que acontece lá embaixo.

Pois então, vamos falar sobre o que acontece lá embaixo e acabar com a desinformação sobre a cistite agora mesmo.

Primeira coisa:

Não se assuste. Meu urologista disse que TODA mulher terá infecção urinária uma vez na vida, pelo menos.

Mas por quê?

Por causa do nosso design. A infecção urinária acontece quando bactérias que vivem muito bem, obrigada, no nosso intestino acabam entrando na uretra, por onde fazemos xixi. Se homens podem desenvolver, imagina no corpo feminino, em que os dois orifícios se situam próximos um do outro e o canal da uretra é mais curto. O tráfego de bactérias se torna corriqueiro.

Quais são as causas? O que pode fazer a bactéria se instalar no lugar errado?

São várias e por isso é tão importante você NÃO tomar o remédio da sua amiga e, sim, procurar um urologista, porque o tratamento tem a ver com os seus hábitos, não com os dela.

Não tomar água e não urinar

Se você não toma água, provavelmente não vai urinar em quantidade satisfatória para eliminar a bactéria. Quando a bactéria entra, a primeira área que ela atinge é o canal da uretra. Se você é uma pessoa que toma bastante água durante o dia e não fica segurando o xixi por muito tempo, conseguirá eliminar a bactéria e nunca saberá que um dia ela entrou onde não devia. A urina passa pelo canal e varre a bactéria para fora. Mas se você faz tudo ao contrário, como era o meu caso, quase não toma água e segura o xixi por longos períodos, a bactéria não sairá da uretra, subirá mais um pouco pelo caminho, alcançando a bexiga. É quando começa todo aquele desconforto e tentar eliminá-la apenas tomando água não será mais possível. Geralmente é nesse estágio que procuramos o médico. Porém, tem gente que não procura, não trata e a bactéria continua sua jornada “corpo acima”, chegando nos rins e podendo evoluir para consequências bem mais graves e, em alguns casos, até fatais. Ou seja, beba água sempre e faça xixi quando a bexiga pedir.

Não se exercitar

O sedentarismo contribui para as crises de cistite. Ao nos exercitarmos, geramos uma série de outras ações relacionadas. Ficamos com sede, bebemos mais água e fazemos xixi, o que limpa a bexiga e a uretra. E, também, a movimentação do corpo, dos músculos, contribui para o bom funcionamento do nosso intestino. Sabe quando dá aquela vontade de ir ao banheiro no meio da corrida ou da aula de jump? É o intestino fazendo o que ele tem que fazer. E pessoas com mal funcionamento do intestino tendem a ter mais infecções urinárias. E tudo isso deve ser falado para o seu médico.

Mal funcionamento do intestino

Cabe um parágrafo especial para chamar a atenção para isso. Se você enfrenta algum problema para evacuar, seja diarréia ou outro, como intestino preso, pode ser um indicativo de que não bebe água em quantidade satisfatória, além de aumentar a chance de contaminar a uretra com bactérias do intestino. Nada de vergonha na hora da consulta e fale para o médico sobre o que acontece quando vai ao banheiro – ou sobre o que não acontece.

Após a relação sexual

Durante a relação sexual, a bactéria pode acabar passando para o canal da uretra. Por isso é importante urinar depois. E, se você observar que os sintomas da cistite sempre aparecem depois que você tem relação, adicione um cuidado a mais. Além de fazer xixi depois, tome um banho. Lave a região para evitar que a uretra entre em contato com as bactérias. Por isso é tão importante você NÃO tomar o remédio da sua amiga e, sim, observar atentamente o que acontece com você para, então, o médico definir qual é o melhor tratamento. Há um remédio específico para ser ingerido antes de ter relação, caso essa seja a causa da sua cistite. Meu urologista perguntava: Teu marido viaja? Tu nota que os sintomas da cistite aparecem depois que vocês têm relação?”. Por que a pergunta sobre a viagem? Porque existe a expressão “cistite de fim de semana”, quando os parceiros viajam a semana toda a trabalho e têm relação com as esposas quando retornam, nos fins de semana, que é quando os sintomas aparecem. Essa é uma forma de observar se a cistite é decorrência da relação sexual ou não. Mas é claro que ela não afeta apenas mulheres casadas, não é mesmo? Por isso, observe-se!

Se secar/limpar errado

Desde pequena, aprendi que devia me limpar/secar, depois de usar o banheiro, puxando o papel da frente para trás. O movimento contrário, por uma questão lógica, trará as bactérias do intestino para a frente, onde está a uretra. Talvez a maioria das mulheres aprenda desde pequena a fazer da forma correta mas, na medida em que ficam mais velhas, algumas acham que não é uma questão tão importante ou grave e acabam se secando no sentido contrário. Pois é de extrema importância se secar puxando o papel da frente para trás. Sempre!

NOTA: Não sei se você reparou mas, independente da causa, é tudo uma questão de manter o canal da uretra limpo para impedir que a bactéria avance. E a maneira de fazermos isso é bebendo água e fazendo xixi. Simples assim.

E quais são os sintomas?

Esse aspecto é bem interessante porque quem ainda não teve cistite não tem noção de como é e só repete por aí: “É uma coceira, né?” Não. Não é uma coceira. Não coça. Se coçasse, a gente coçaria e pronto hahaha. É pior.

É uma irritação localizada num ponto inatingível do corpo. Lá dentro, no caminho que o xixi percorre mesmo. E a irritação chega num nível… que parece que irradia para os nervos. Estou nervosa só em pensar nisso. A gente fica “sem paradeiro”, como diz minha avó. Não tem jeito de ficarmos sentadas que ajude, a gente caminha na rua querendo se deitar no chão, estamos no trabalho odiando tudo e querendo sair correndo, parece que todo mundo fala outra língua porque só temos cabeça para a irritação. É literalmente aquela sensação de “para o mundo que eu quero descer”. Prefiro ter a enxaqueca tenebrosa que tenho uma vez ao mês, no período da TPM, do que sentir os sintomas da cistite.

Outro sintoma é o que aparece na hora de fazermos xixi. Há aquela sensação usual de bexiga cheia. Ok. Só que no banheiro, quando você acha que vai se aliviar, saem poucas gotas, apenas. E em alguns casos, há uma ardência ali pelo orifício da uretra quando o xixi sai.

E em apenas uma vez, e foi em uma das últimas, senti dor na bexiga. Tem gente que tem até febre e/ou apresenta sangue na urina.

Que médico devemos procurar?

O médico que cuida do sistema urinário, o urologista. “Mas é médico de homem!”. Também de homem porque nos homens o aparelho reprodutor e o urinário convergem para o mesmo órgão. Já na mulher, os sistemas terminam separados. Na mulher, o canal da vagina é um e o da uretra é outro. Então, nós mulheres temos de ir a dois médicos: o ginecologista para tratar do sistema reprodutor e o urologista para tratar do urinário.

Eu tive várias crises de cistite quando muito guria e, sem saber direito do que se tratava, corria para a ginecologista porque o desconforto era ali por aquela área. Sempre achei que tinha a ver com a vagina. A médica receitava um remédio e sempre terminava a consulta com “Vê se procura um urologista!”. Mas enquanto eu estava bem, a última coisa em que pensava era procurar um urologista. Daí vinha uma nova crise e o ciclo recomeçava, com consultas na gineco e sem entender direito o que acontecia.

Como as infecções se tornaram frequentes, acabei procurando um urologista. Fui morrendo de medo. Não sabia como era a consulta e não queria de jeito nenhum ser examinada por um homem. Fiquei muito nervosa. Apavorada era a palavra. Na sala de espera, pensava: Será que vou ter que tirar a roupa? Mas o que ele tem pra ver? Não tem o que ver! Então, se pedir para eu tirar a roupa, devo sair correndo do consultório? Como podem perceber, uma jovem com muitas dúvidas e receios.

Por fim, foi tudo tranquilo. Ele não me examinou, apenas fez várias perguntas sobre a minha vida e meus hábitos, se era sedentária, se tinha problemas para evacuar, se era casada, se meu marido viajava, se me secava no sentido correto, se tomava bastante água e urinava com regularidade. Com base em tudo que respondi, ele aconselhou que começasse a tomar mais água e que nunca mais ficasse horas sem fazer xixi. Também solicitou um exame de urina para detectar o tipo de bactéria e receitou o remédio específico para acabar com a cistite que já estava instalada. Ele também me indicou tomar o suco de cranberry – sempre tomei o sem açúcar. A fruta tem propriedades varredoras de bactérias maléficas no sistema urinário.

E com informação, tudo se resolveu.

Com mudanças nos meus hábitos, consegui não ter mais crises. Há muitos anos eu não tenho infecção urinária e quando vejo uma mulher sofrendo com isso, sofro junto.

Por isso quis colocar aqui tudo que aprendi sobre a infecção. Quando não tive mais crises e parei para pensar em tudo que vivi ao longo do caminho, me dei conta de que sempre sofri em função da falta de informação. Porque para dizer a você não sentar em pedra gelada aparecem umas quinhentas pessoas (o que, segundo meu médico, é crendice), mas pra te dizer “Faz um xixi depois de transar, amiga” não tem ninguém.

NOTA FINAL: Há cistites causadas por fungos e também por outros fatores, como infecções hospitalares. Eu falei aqui sobre a que me afligia e que pode ser a mais corriqueira no dia a dia das mulheres. Independente de qualquer fator, precisamos sempre procurar um médico e contar tudo o que acontece.

 

Foto (de uma impressão da obra Nascimento de Vênus de Botticelli) e texto: Juciéli Botton para Casa Baunilha

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