Crônicas,  Vida e Carreira

Não, eu não estou grávida: pelo direito das mulheres aos quilos a mais

 

As pessoas continuam a perguntar se estou grávida. Há muito inserida nesse contexto de perguntas e respostas, notei que há uma engrenagem por trás da pergunta. Pessoas te consideram grávida porque, por alguma razão, é descartada a possibilidade de você estar apenas pesando alguns quilos a mais do que o usual. Por isso venho aqui, de coração aberto e pochetinha adiposa devidamente demarcada pela minha calça mom jeans, para defender o direito das mulheres de engordarem e exibirem seus quilogramas extras.

Para começo de conversa, não me considero gorda. Só que todos os olhares que me rondam dizem que sim. E vamos encarar: hoje, se você não exibe a tal da “barriga negativa” e adora comer uma lasanha de vez em quando já é considerado gordo. Ou melhor, ou pior, gorda. As pessoas não julgam o corpo dos homens.

A condenação e o preconceito acontecem em um processo. Digo preconceito, sim, porque é a partir dele que urge o direito de adquirirmos e exibirmos uns quilos. Veja bem: para excluírem a possibilidade de termos gordura localizada e afirmarem estarmos grávidas, é preciso estar debruçado sobre pré-conceitos: hum… ela sempre foi magra, não pode estar gorda / que isso, ela é bonita, não pode estar gorda / ela é minha (coloque o parentesco), não admito que esteja gorda / mas ela namora o fulano, então aquilo não deve ser gordura / ela era ginasta, não pode ter engordado e por aí vai.

E o processo é o seguinte: primeiro, há o olhar alheio baseado em preconceitos, que pode vir de quem já te conhece ou não. Geralmente ele se cria na região da sua face. Depois, o olhar desce para a sua barriga – e você já percebeu tudo e sabe o que está por vir – e acontece o incompreensível. A pessoa risca a opção “gorda” das alternativas que aparecem em sua mente e fica com “grávida”. Porque afinal de contas, gorda você NÃO PODE estar. O passo seguinte é o confronto verbal, que graças à generosidade da sintaxe, também pode ser interpretado como falta de bom senso, zero sensibilidade, ausência total de empatia, dificuldade de sintetizar o pensamento “isso não é da minha conta” etc.

Matematicamente falando, é uma doideira isso. Acompanhe: quando temos uma questão que só pode ser resolvida entre apenas duas alternativas, como os antônimos sim e não, por lógica, há 50% de chances da resposta para a questão ser “sim” e iguais 50% de chances de que seja “não”. Muito bem. A criatura que pergunta a uma mulher se ela está grávida é um kamikaze social. Como alguém que pergunta a uma mulher se ela está grávida não considera os outros 50%, os da gordura localizada?

O que nos leva a algo incrível: para a criatura, a certeza da gravidez é tamanha que, de acordo com a própria lógica, está fazendo uma pergunta cuja resposta já sabe.

Calma, tem como piorar. Tem. Pior do que perguntarem a mim se estou grávida é perguntarem a outros, meu marido, por exemplo, se estou grávida, na minha frente, em terceira pessoa, como se eu não estivesse com todas as faculdades mentais em pleno funcionamento. Tipo quando perguntam aos pais se o bebê dorme bem, sabe? Aí sou obrigada a ser deselegante e a me meter na conversa alheia, dizendo Não, eu estou gorda mesmo. Não há vingança melhor do que o constrangimento merecido. E então os próximos minutos são todos sobre ouvir desculpas e pormenores de costuras e tecidos que “deram a entender” o volume maternal. Veja bem, digo constrangimento, e ele acontece sim, porque a sociedade estabeleceu que quilos a mais são ruins, que pessoa com sobrepeso não é uma pessoa legal. Compreende a complexidade da coisa? Quando a sociedade parar de classificar os corpos das mulheres e de dizer qual é bom e qual é ruim, talvez possamos responder apenas: não, não estou grávida. Mesmo quando respondemos dessa maneira, o dono da pergunta se constrange da mesma forma justamente pelos critérios de segregação que a sociedade cimentou.

E quando obrigatoriamente temos de informar as atuais características do nosso útero, no caso de negativa, imediatamente a pessoa julgadora (e agora constrangida) tenta fazer a sua gordura desaparecer. Porque, turma, se eliminarmos a possibilidade de gravidez, sobra o quê? A adiposida…de! E é tragicômico quando tentam te emagrecer verbalmente ah, é que o teu casaco estava por cima, e o cinto vinha por baixo, e o listrado confundiu, e a costura costurou e a chuva molhou e o vento levou.

Ainda tem um outro “pior do que isso”, que é você se abrir e contar sobre um problema grave de saúde e a pessoa ouvir (não sei de onde) “grávida”. Então você repassa todos os tópicos principais da conversa como: tumor, hormônio em excesso, ausência de menstruação, mas a pessoa continua olhando para a sua pochete de gordura e decidindo que você está grávida.

Vamos lá: se a minha gordura significasse gravidez, eu estaria, agora, com seis anos, dois meses e 15 dias de gestação, sem nunca ter ganhado um presente.

Eu sei que você olha para a minha barriga. Eu vejo. Você disfarça mal. Muito mal. Pois até quem apenas olha, muito diz. Nós temos o direito de ter certeza de que vocês sabem que nós sabemos que vocês estão olhando para a nossa barriga e julgando (isso, leia novamente pois essa parte é muito importante). Nós temos o direito de apresentar nossos quilos a mais.

Não, nós não estamos grávidas.

 

Sobre a foto: eu cliquei a Vênus se banhando no Museu Nacional de Belas Artes do Rio de Janeiro. A estátua faz parte de uma coleção de esculturas criada no início do século XIX por meio de uma técnica de moldagem feita diretamente sobre as esculturas originais, do período greco-romano, espalhadas pelos principais museus do mundo. Parece que a original Vênus/Afrodite se banhando ou agachada data do século III antes de Cristo e que a derivada e atual escultura oficial fica no Museu do Vaticano.

Foto, arte gráfica e texto: Juciéli Botton para Casa Baunilha

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