Crônicas,  Vida e Carreira

Relacionamento: uma tarefa hercúlea

Parafraseando um dito popular, se a China se divorcia, o mundo fica desquitado. A notícia de que a China registra um recorde de pedidos de divórcio devido ao confinamento foi reproduzida com tanta intensidade pela mídia e pelas redes sociais que as pessoas passaram a repetir que “aumentou o número de divórcios”, dando a entender como se o mundo estivesse se divorciando. O que de certa forma é compreensível, uma vez que não existe mais oceanos e cercas nos afastando: o mundo sem fronteiras é realidade, o global está aí, na nossa porta, a Covid-19 que nos diga. Mas a falta de informação sobre o “nós estamos nos separando”, “os casais estão se divorciando” começou a me incomodar.

Então, fiz o que cabe a todos nós fazermos: fui atrás de informações confiáveis. De acordo com o Conjur, a história não é bem assim, muito pelo contrário. No que se refere ao nosso quintal, o Brasil, houve queda de 43% nos pedidos de separação, entre fevereiro e abril deste ano, em detrimento do mesmo período do ano passado. O Conjur explica que o processo judicial eletrônico não está disponível em todos os estados brasileiros e, devido ao isolamento social, muitas pessoas não conseguem iniciar o processo do divórcio.

Concluindo: não podemos afirmar que o Brasil está se divorciando pois não temos dados estatísticos comprovados. Entretanto, o Conjur projeta que o número de pedidos de separação irá aumentar na medida em que for possível fazer os atendimentos. Até mesmo no que diz respeito aos casais chineses há outras variantes, como o acúmulo de pedidos, uma vez que os escritórios ficaram fechados por um longo período devido ao isolamento.

Questões sobre relacionamentos me fazem pensar. Meu marido e eu estamos juntos há vinte anos. Hoje, compartilhamos nossas vinte e quatro horas do dia em quarenta e cinco metros quadrados de apartamento. Há apenas duas portas internas, a do banheiro e a do nosso quarto, esta raramente fechada. O outro quarto, onde funcionam o escritório e o ateliê, fica aberto para os demais ambientes, a sala e a cozinha. Não é fácil.

Fiz uma playlist com as músicas da aula de ritmos da academia para fazer em casa, mas só consigo dançar quando ele sai para correr. Caso contrário, desconcentro ele no trabalho. Ele gosta de fazer pão e só pode sovar a massa depois que eu encerrar minhas criações na mesa com tampo de pedra. Falar ao telefone com privacidade está fora de cogitação. Sou notívaga. Ele adora acordar super cedo. Um quer preparar o almoço ouvindo as notícias, o outro não aguenta mais lembrar nomes de parlamentares e confundir os dos parentes.

Penso nos casais que se separaram durante a pandemia – independente de ação jurídica ou não e da nacionalidade. Provavelmente há os que já estavam se desgostando e que o confinamento apenas confirmou as suspeitas e acelerou o processo; os que tiveram os olhos abertos graças ao confinamento; os que estavam juntos pelas crianças e que não conseguiram mais atuar com o público sentado no gargarejo, assistindo à peça com reprise todos os dias; os relacionamentos que funcionam bem justamente em função de um certo distanciamento e então o confinamento arruinou; há modismo para tudo e alguns casais se jogaram na onda das estatísticas de divórcio. Neste caso, exigimos a atualização dos dados a posteriori com os índices dos que reataram.

A verdade sobre os relacionamentos é que são uma tarefa hercúlea. Não é pra quem está a passeio, ou “pelo rolê”. Amor não basta, paixão não basta, química não basta. Noventa e cinco por cento do tempo é trabalhar. É se dedicar. É pacienciar – inventei. É descobrir que você estava errado. E admitir que errou. É pedir desculpas. É recomeçar. É tentar de novo. E amanhã mais uma vez. É trabalho pesado.

Eliminando o fato de que há vários fatores em uma relação cuja solução mora única e exclusivamente no divórcio, há pessoas que simplesmente não querem ter esse trabalhão. Algumas têm preguiça, mesmo. Já ouvi muito “a Juci teve sorte”. Nesta hora, se houver silêncio, é possível ouvir meus olhos semi-serrando e minha cabeça elaborando: tu estás achando que isto aqui que eu construí com suor e lágrimas foi sorte? Alto lá.

Se por um lado o confinamento pode ser a prova de fogo para um bocado de casais, por outro pode significar um grande reforço para o relacionamento. Muitos casais mergulham nas profundezas das centenas de afazeres do dia a dia que nem reparam que faz um ano e meio desde o último elogio. Agora, o isolamento social os colocou para se olharem, e olhando para o outro a gente se olha no espelho. Porque são parecidos? Não, porque as reações do outro dizem sobre a gente, nossas atitudes, nossa comunicação não verbal, e apontam as muitas qualidades que nos faltam.

Antes eu preparava meu iogurte com granola para o café da tarde, comia e pronto. Hoje, trabalhando em casa, meu marido vê meu iogurte com granola e quer umas colheradas. E tenho sérios problemas em dividir meu lanche, sobretudo quando a pessoa come o meu e o dela, que ela ainda vai preparar. Daí eu começo a ter certeza de que ele comeu do meu lanche para que eu não comesse tudo sozinha e assim começa uma briga típica de casal. Que dali a alguns meses retornará como se a gente já não tivesse sentado para conversar e esclarecer. Mas vendo a reação dele, me vi no espelho, vi o quanto é horrível não partilhar os alimentos com meu amor e ele também entendeu que deveria preparar o dele junto comigo e que daí sim, poderíamos trocar colheradas.

Mas Juci, você disse que amor não basta. Sim, mas você faria esse trabalho hercúleo por alguém que não ama? Faria por menos? O amor é a pedra fundamental do relacionamento, mas o dia a dia é feito de terremotos, pandemias. É preciso sempre reconstruir tudo que desmorona em algum momento, sobre a mesma base. Se você amar, ter amor de volta e não tiver preguiça, claro.

Por fim, para quem considera que há problemas maiores do que colheradas alheias de iogurte com granola, considere também que mencionei apenas os problemas mencionáveis.

E bom trabalho a todos os casais.

Foto e texto de minha autoria, Juciéli Botton, para a Casa Baunilha. A foto que ilustra a crônica eu tirei de uma pintura da artista Maria Auxiliadora, no MASP, em São Paulo. Ela mostra cenas do cotidiano do subúrbio paulistano, coloridas e com alto-relevo, muitas delas retratando pessoas cujo cabelo é o da própria artista. 

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