Ivoti,  Por aí,  Rio Grande do Sul,  Serra Gaúcha

Um passeio pelo Conjunto Histórico Feitoria Nova em Ivoti | RS

 

Num dia de forte nevoeiro na estrada da serra gaúcha, na BR 116, desisti de chegar ao meu destino (mais no alto) por questões de segurança e aproveitei para conhecer Ivoti, mais ao pé da serra – confira mais sobre este dia clicando aqui. E foi uma surpresa mais do que especial descobrir um tour histórico por um bairro da cidade chamado Feitoria Nova, que fica na parte baixa da cidade, à beira de um rio e que resgata a história de imigrantes alemães que com muita coragem e esperança trabalharam duro para sobreviver e prosperar por ali, quando o que havia era nada, somente mato. O tour guiado é maravilhoso, recomendo, pois há muito para saber sobre a história que, na verdade, é a história de muitos de nós.

 

 

P O N T E   D O   I M P E R A D O R

As cheias do Arroio Feitoria eram constantes e causavam enchentes que deixavam as casas sob a água. A vida ficava bastante difícil, também para os tropeiros e viajantes, que precisavam esperar o nível do rio baixar para continuarem a sua jornada – alguns vinham de São Paulo tocando o gado. E isso poderia levar muito, mas muito tempo. Cansados desta situação, a própria população ergueu a ponte com o auxílio de profissionais. A ponte teve um papel muito importante na economia pois fazia a ligação entre a região colonial e a capital da província.

 

Esta é a paisagem que surge quando nos aproximamos da Ponte do Imperador. Ao fundo, o topo da Casa Amarela. A Ponte do Imperador tem esse nome porque Dom Pedro II mandou a quantia de 75 contos de réis para a construção da ponte. Só que o auxílio chegou meio tarde, depois que a própria população ergueu construção. Como se não bastasse o esforço comunitário para tal feito, a população ainda devolveu o dinheiro. Ao que pensei: o nome da ponte pode soar como um sarcasmo.

 

Por esta foto podemos ver que a ponte ainda possui duas saídas laterais.

 

A ponte também oferece áreas de convivência próxima a lâminas d’água, que neste dia estavam completamente cobertas por plantas aquáticas. Aquele tapete verde que não deixa de ter a sua beleza.

 

Os famosos três arcos centrais. A construção, erguida entre 1857 e 1864, em pedra grês, seguiu o estilo romano num sistema que acho sensacional, somente por encaixe, sem nenhuma massa ou cimento entre as pedras.

 

Tem árvores que mais parecem interpretar um papel. Dramático, eu diria.

 

Há uma área verde muito bonita junto ao curso do rio, onde podemos nos aproximar dos 3 arcos da ponte e observar sua arquitetura.

 

E eis que surge um Fusca. Poderia ser vermelho, amarelo, verde, azul. Mas ele era adoravelmente da cor deste dia cinza. E acima dele, bem ao fundo, a torre da antiga Igreja Matriz na parte alta da cidade.

 

C A S A   A M A R E L A

De 1917, data presente na fachada, em estilo eclético, ela fica ao pé da Ponte do Imperador e foi um importante ponto comercial da região. Era onde as pessoas trocavam o que elas produziam por itens que faltavam em casa. Para manter a tradição comercial do espaço, hoje a casa oferece um café colonial.

 

Em 2007 foi restaurada com recursos enviados pelo consulado alemão.

 

No lado oposto, no outro “pé” da ponte, as ruínas de uma casa ainda resistem. O terreno é particular, pertence a uma família que parece ter a intenção de restaurar para estabelecer um espaço para estadias, uma pousada, talvez.

 

N Ú C L E O   D E   C A S A S   E N X A I M E L

Dobrando a esquina da Casa Amarela, vemos um conjunto de casas de estilo enxaimel, originais da época da imigração alemã na cidade, que ficam lado a lado na mesma rua. Nelas funcionam hoje os departamentos de Turismo e de Cultura – onde encontramos a guia Marinês -, o Museu Claudio Oscar Becker – por onde ela nos acompanhou e que vou falar mais para frente neste post – e a Casa do Artesão. Há, também, banheiros para os turistas.

 

 

M U S E U   C L A U D I O   O S C A R   B E C K E R

O museu funciona em uma das casas históricas da rua e fizemos uma visita guiada pela Marinês.

A arquitetura das casas construídas pelos colonos imigrantes alemães tem características bem específicas que constituem o estilo chamado enxaimel. Primeiro é feita a estrutura com as toras de madeira, posicionadas na vertical, horizontal e diagonal. Depois, a estrutura é preenchida com barro e pedras. Agora, uma informação que eu nunca tinha escutado antes, em todos esses anos de serra e interior gaúchos: não necessariamente os alemães que vieram para o Brasil moravam em casas assim lá na Alemanha. Eles simplesmente tinham essa referência de construção que se encaixava na condição deles na época aqui no Brasil. Pois quando chegaram aqui eles não tinham nada, não havia uma casa ou família esperando por eles, era tudo selva, mato e tiveram de construir vilarejos do zero. O perigo de animais selvagens como onças e cobras era tão certo que, em caráter de urgência, construíram suas casas no alto das árvores – meus avós contam muito essa história. Com o tempo, foram erguendo essas casas com o que estava disponível no local: terra e madeira. Por isso vemos o estilo enxaimel por muitos vilarejos históricos do Rio Grande do Sul, mas não porque eles queriam manter a “tradição’ do morar na Alemanha, e sim porque não tinham outra alternativa. Olha, só com este esclarecimento achei que já valeu o passeio.

 

Isto é uma geladeira. Com ela, era possível manter certos alimentos protegidos da alteração de temperatura. Porém, gelo mesmo era muito raro ter pois era caro, vinha de Novo Hamburgo. Somente em ocasiões muito especiais.

 

Isto é um wandschoner. As mulheres, seres de pouca voz na sociedade, viam nestes tecidos bordados e fixados em uma parede visível pelas visitas da casa, uma forma de se expressar, de dizer aquilo que lhes era importante e também como uma forma de se afirmar. Então elas bordavam dizeres populares, ou trechos bíblicos ou, ainda, frases que enalteciam uma qualidade sua. Como é o caso deste, que diz: “O melhor tesouro de um homem é a mulher que sabe cozinhar”. A técnica usada era a do ponto livre, trazida pelos imigrantes no início do século XIX. O wandschoner foi considerado patrimônio histórico imaterial de Ivoti e sua tradição é mantida ainda hoje pela Associação de Bordadeiras Tecendo Memórias, que trabalha a inclusão social por meio da arte do bordado.

 

Entre alguns utensílios expostos nesta parte da casa, o que se destacava era esta cadeira em madeira, com louça encaixada. A guia nos explicou que era uma cadeira usada por quem estava doente e não tinha condições de se deslocar por longas distâncias até o banheiro. E o detalhe é que era a única cadeira assim em toda a comunidade. Ou seja, as pessoas revezavam conforme precisassem. Um conceito de compartilhamento que vemos sendo resgatado em muitos condomínios e comunidades hoje. Por exemplo, em vez de cada apartamento ter o seu aspirador de pó, o condomínio adquire apenas 1 e mantém disponível para quem precisar. O que era reflexo da dificuldade e da escassez de antigamente se tornou uma atitude valorosa e de consciência.

 

No quarto, assim como em todos os cômodos da casa, a arquitetura enxaimel fica bastante evidente. Todo mundo já deve ter visto na casa dos avós um quadro como aquele dali, acima da cama. A pintura era feita a partir da fotografia das pessoas. Elas poderiam estar em fotos separadas, por exemplo, e não precisavam ficar paradas por muito tempo – alguém consegue? Um ponto com que, segundo a Marinês, as pessoas ficam chocadas é o guarda-roupa. Mais precisamente seu tamanho minúsculo. Quase metade do comprimento da cama em largura, ele guardava a roupa de toda a família. E família no século XIX equivalia a quase uma dezena de gente. E detalhe: cada pessoa tinha, no máximo, duas roupas. A do dia a dia, e a de sair em ocasiões extraordinárias. Além do espanto, o pequenino guarda-roupa gera muitos questionamentos, como o velho caso de se ter um roupeiro lotado de roupas nos dias de hoje e ao mesmo tempo “não ter o que vestir”. Enfim, a Marinês disse que as pessoas ficam realmente chocadas com o armário. Outro costume, que podemos ver pela posição do berço, é que o bebê da família sempre dormia com os pais.

 

No sótão, há muitos outros móveis e objetos antigos. Bem à esquerda, uma pilha de malas. A Marinês pegou uma e abriu para termos uma noção do espaço de armazenamento, e nos convidou a pensar: imaginem que vocês tivessem de ir para outro país para começar uma vida nova, hoje, tendo que deixar tudo para trás, podendo levar apenas uma mala como esta, o que vocês colocariam dentro dela? Difícil, não é mesmo? A pessoa tinha de escolher entre tudo o que ela tinha na casa. E tudo era tudo mesmo, desde os itens da cozinha até os da sala. Você tinha de escolher se levava um par de calçados ou um prato de louça.

 

As bonecas eram de pano e geralmente produzidas em casa mesmo.

 

Antigas “carteiras” escolares, em madeira e ferro.

 

Mais uma casa de estilo enxaimel original da época, na mesma rua.

 

Um detalhe sobre esta casa muito importante: se trata de uma propriedade privada e foi construída não faz muito tempo, com cimento e tudo mais. Por meio de detalhes na arquitetura tentaram aproximá-la das casas verdadeiramente antigas e originais da época da imigração. Porém, os turistas que não perguntam e não procuram saber sobre o lugar, chegam, tiram fotografias dela como se fosse a casa histórica dali e vão embora. Como falei antes, as casas do outro lado da rua é que são as originais da época dos colonos e que contam a história que mostrei neste post. Esta é a única casa que fica no lado oposto da rua e não tem a ver com o período histórico.

 

Em meio a tantas construções históricas, havia este tapume com uma ilustração super colorida. Não pude deixar de aproveitar.

 

Há tantas histórias em Feitoria Nova e tanta beleza, mesmo sob nuvens escuras, que fiquei realmente grata por voltar um pouco no caminho original do meu passeio por questões de segurança e por querer conhecer Ivoti. A cidade se tornou uma das queridinhas das minhas voltas pela serra gaúcha.

 

Fotos e texto: Juciéli Botton para Casa Baunilha

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