• Crônicas

    Isso explica tudo

    Eu rodei a cidade inteira atrás de um protetor labial incolor com fator de proteção 15 que não deixa gosto de protetor solar na boca. Não é coisa da minha cabeça, ele existe. Eu uso faz muitos anos. Só que aconteceu que ele não está mais entre nós, pelo menos fisicamente, porque seu espírito acusa 04 unidades numa loja, 01 unidade na outra mas, quando chegava lá, não passava de uma pegadinha do sistema.

    Eis que na trigésima loja o vendedor, vindo do estoque, me dá o golpe de misericórdia e, sem querer, mas acredito que sem querer mesmo, ele acabou por explicar quem somos, de onde viemos e pra onde vamos e, de quebra, se aquela fumaça que sai dos aviões a jato é ou não é veneno para acabar com a humanidade. Com um sorrisinho que dizia “se toca, moça”, ele solta: É que ele é um produto que vem no verão…

  • Crônicas

    Chocolate é a cor mais quente

     

    Eu vou pular a parte de que as praias mais pra cima no mapa do Brasil são as mais lindas, etcetera e tal e vou direto para a parte de que eu tenho este defeito. Eu enxergo poesia onde ninguém vê, mesmo. Eu tenho essa coisa de olhar pra um dia nublado numa praia com mar chocolate quase sem ninguém e enxergar uma paleta de cores, e não apenas um dia nublado numa praia com mar chocolate quase sem ninguém. De olhar pra uma praia com mar chocolate e enxergar que é a natureza dela. Ou melhor, é a natureza. De olhar pra uma praia com mar chocolate em dia nublado sem ninguém e sentir que estou naqueles cenários de longa metragens americanos onde a famosa escritora de meia idade acaba de se divorciar e reserva um tempo pra si mesma na casa de praia da família e ali mesmo, diante daquele mar chocolate em dia nublado sem ninguém, ela encontra o amor da vida dela, um pescador que na verdade largou a empresa mega bem sucedida de engenharia para viver se alimentando dos peixes que ele mesmo pesca, e do seu cabelo por cortar. Ela, com suas blusas de gola rolê, porque afinal, o que é que combina com um clima nublado em praia quase sem ninguém com mar chocolate, se não uma blusa de gola rolê? E eu já não sei mais porque comecei essa frase, acho que só pra dizer que fazia frio. 

  • Crônicas,  Vida e Carreira

    Contos de horror, belas ilustrações e muitos sentimentos

     

    Quando criança e, como podem ver, até os dias de hoje, eu tinha este livro, Os mais belos contos de fadas recontados por Lornie Leete-Hodge e ilustrados pela premiadíssima Beverlie Manson, de 1981 – sendo o primeiro de 1978. O que me encantou desde o começo foram as formas dos personagens. Eu era fascinada por aqueles seres diferentes de qualquer coisa que eu já tinha visto na minha vidinha. Eu já sabia das histórias, já haviam me contado, e mesmo quando aprendi a ler não me interessava o que diziam. Toda vez que eu abria o livro era pra me perder naquele primor gráfico, naquelas formas estranhas e, ao mesmo tempo, sedutoras.

    Estranhas, sedutoras e algumas também horripilantes. Com meus dedinhos, eu abria o livro bem pouquinho, de forma que segurasse a maior parte das páginas juntas, começando a folhear pelo fim porque era lá que morava o ser mais pavoroso já criado. Eu tinha verdadeiro horror àquele gigante da história do João e o Pé de Feijão.

    Eu nunca ia até aquela página quando abria o livro. Nem que me pagassem com um balde recheado de Playmobil – que nunca tive, brincava com os dos meus primos. Mas sempre chegava o dia em que eu dedicava um tempo especialmente ao ato de espiar a criatura horrorosa, levantando bem pouquinho as páginas, a fim de

  • Crônicas,  Vida e Carreira

    Anos luz pela fresta da sua janela

     

    Sabe aquelas persianas antigas de plástico com barras que quando fechadas se encaixam umas nas outras e quando abertas mostram furinhos da estrutura por onde passa luz?

    Sabe quando você fecha a persiana e fica aquela fresta entrando luz quando não é pra entrar luz?

    Sabe quando você sobe a persiana novamente e se esforça com toda a sua energia pra tentar fechar ao máximo e ela continua com as malditas frestas?

  • Crônicas,  Espelho Meu,  Guarda-roupa,  Vida e Carreira

    Só hoje! Lista de presentes que são uma pechincha

    Quem nunca foi interrogado sobre o que gostaria de ganhar de aniversário? Eu nunca sei o que responder porque, na verdade, fico constrangida em dizer no que as pessoas devem gastar. Ou pior, ter que reafirmar que elas tem que me dar alguma coisa. A verdade é que as coisas que eu mais gostaria de ganhar e que me fariam feliz ninguém considera como um presente. As pessoas geralmente acham que ele deve ser algo extraordinário, gastam muito e ainda por cima podem acabar comprando errado. E é mais ou menos como eu penso também quando vou comprar um presente pra alguém. Ou seja, é um mal que aflige a todos nós.

    Então, pra eu não perder a chance de fazer uma lista (adoro fazer listas) e me divertir um pouco com isso, montei um balaio de presentes-pechincha que me fariam muito feliz – com valores que podem variar, claro.

    Camiseta branca – R$ 20,00 | Gente, quem não quer uma camiseta branca? Ela é curinga. Vai com você pra cama na hora de dormir e também pra balada sob uma jaqueta de couro. Ela é a base do guarda roupa cápsula, que constitui o básico do básico do seu armário. Mas não precisa ser aquela baby look esturricada, não é mesmo? Um P, ou até um M, masculino tá ótimo. É vendida desde as Lojas do Aldo até a Hering.

    Buquê de flores – R$ 15,00 | Tem coisa mais linda que um belo arranjo de flores em casa, pra onde você olha toda vez que passa e fica feliz sempre que vê? “Ah, mas vai morrer logo.” Que nada! Será eternizado no Instagram da Casa Baunilha e aqui no blog também. Tá bom pra você? Nas feiras, eles ainda embrulham somente naquele papel pardo, sem aquelas frescuras plásticas. O buquê da foto eu comprei na tradicional feira orgânica de Porto Alegre, a do sábado na Redenção, e custou 15 reais. Amo esse mix com vários tipos de flor.

    Pacote de sabonetes Dov– R$ 12,90 | Ele já é caro por natureza. Nesse período de crise, então, é só isso que ele faz, ficar caro. Então eu adoraria ganhar, sim, com certeza. E rende que é uma beleza: primeiro vai pro guarda-roupa pra perfumar o espaço – sou dessas – e depois vai pro banho.

    r do sol no Guaíba – R$ preço da corrida ou carona | Seria um presentaço você me levar ou pagar o Uber/Cabify/ou o que você costuma usar pra gente ir curtir esse espetáculo da natureza juntos. Se for ali em frente

  • Crônicas,  Vida e Carreira

    Sobre tortas que desandam e decepções na vida

    Terça-feira de Carnaval, fui comer a minha sobremesa preferida no meu café preferido. Não foi bom. A torta de chocolate amargo me traiu. Ela não quis nem saber pra quantas pessoas mais eu falei que ela era a melhor da cidade. Fiquei me sentindo, além de caluniada, meio desamparada. Afinal, eu não tinha mais uma sobremesa preferida. Eu não tinha mais um destino certo nos finais de semana. Meu namorado provou um pedaço e comentou, nossa, tá estranho, não tá mais como era. E eu ainda tentei forçar uma mentira e disse, não, não achei. Achei sim. Não tava bom. A qualidade caiu. Até que lá pelas tantas eu admiti que ele tinha razão. Foi até um alívio poder dividir com alguém minha decepção. Orgulho de lado, aceitei a batalha já perdida.

    Essa história da torta é tão ridícula na sua insignificância perto de situações verdadeiramente graves na vida, que ela foi apenas uma faísca pra eu começar a pensar sobre o assunto.

    Decepções são uma certeza na vida. Seja lá em que área for. Seremos tirados, da zona de conforto, sempre. O que não é ruim quando se trata de uma decisão nossa. Mas comecei a pensar no campo de possibilidades que se abriu diante de mim a partir da situação. Provavelmente vou peregrinar por outros lugares agora, em busca de uma nova sobremesa. Será uma descoberta em todos os sentidos. Talvez a torta estivesse me mandando um recado, tipo, sai daqui e vai provar coisas novas, mulher!

    Talvez todo esse papo romântico seja só pra tentar camuflar o fato de eu estar muito decepcionada por uma sobremesa tão boa ter desandado. Por eu ter feito sua boa fama pra todo mundo, que agora vai ir lá provar e chegar à conclusão de que eu não sabia do que estava falando.

    Bom, entre ficar brigando com uma torta e seguir em frente dando o troco nela, eu prefiro, sem dúvida, seguir em frente dando o troco nela.

    Mas sou daquelas pessoas que oferece uma nova chance pra coisa provar que realmente errou. Vai que, naquele dia, a confeiteira teve que ficar em casa com uma virose enquanto outra mão se encarregou da torta? Vai que o estrelato dela já esteja escrito nas estrelas e ela vai, sim, voltar a brilhar?

    Acho que vou voltar, só pra ter certeza de que está tudo acabado entre nós, mesmo. Pra eu não olhar pra trás e pensar: e se…

    Torçam pra que o melhor aconteça. Seja uma reconciliação ou uma vida nova. Pra nós duas.

     

    Ilustração e texto: Juciéli Botton para Casa Baunilha

  • Crônicas,  Vida e Carreira

    O princípio do vazio

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    Na última crônica, aquela sobre o nirvana do guarda-roupa, eu comentei sobre a importância do período de fim de ano pra mim já que me inspira a rever muita coisa na vida e, claro, em casa, como arrumação, descarte e desapego – acho que com quase todo mundo é assim, não é mesmo?

    Pois muito bem. Certa vez, minha tia querida, Denise, mostrou um texto que me trouxe uma reflexão profunda. Talvez porque mexa um pouco com ego, orgulho, esses cretinos osso duro de roer que não aceitam muito bem uma revolução. O texto não é novo, é do Joseph Newton, já rodou os quatro cantos da internet, mas considero importante ele marcar presença neste momento

  • Crônicas,  Vida e Carreira

    Como atingir o estado nirvana do guarda-roupa?

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    Eu juro pra vocês que fico constantemente tentando me livrar de coisas aqui em casa. Maaaas, quando o fim de ano se aproxima, dá aquela vontade que vem lá do fundo do meu ser de fazer uma revolução, descartar e doar boa parte das coisas que tenho e buscar uma vida que seja possível com menos. Pois agora, o meu foco é o guarda-roupa.

    Alguns já sabem, eu moro em um apê pequeno – com menos de 50m², e não 200m² como algumas marcas e empresas de decoração gostam de classificar imóveis pequenos – pois justamente porque junto e coleciono coisas, achei que morando em um espaço contido eu teria que me esforçar pra aprender a viver com menos, e a valorizar qualidade e não quantidade. Então é assim desde que decidimos (meu namorado e eu) morar dessa forma.

    Pois bem. Em um apê pequeno, quarto pequeno. Para um quarto pequeno, um guarda-roupa menor ainda. E dentro dele, duas partes, sendo que apenas uma é minha, e é dentro dessa minha que tento fazer mágica pra caber tudo. Meu sonho era abrir o roupeiro e enxergar 1 calça jeans, 2 camisas e 1 vestido. A sensação de limpeza mental que deve dar isso deve ser algo fenomenal. Só que

  • Crônicas,  Vida e Carreira

    O dia em que acabei com a ditadura do biquíni na minha vida

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    Desde muito nova, usar biquíni era vergonhoso pra mim. Me sentia nua. Sempre me questionei sobre ter que vestir lingerie para ir à praia enquanto os homens seguiam confortavelmente enfiados em seus bermudões e camisetões, mesmas roupas que usam dentro de casa na frente de suas mães.

    Mas todo esse questionamento era só meu. Não fui criada pra perguntar, mas pra obedecer. Todo mundo usava biquíni, então eu usava biquíni.

    Até que mais velha eu levantei, raras vezes, a discussão para a minha mãe, de que biquíni era pior que lingerie já que mostrava até mais. Mas minha mãe sempre achou a comparação um absurdo, e a vida seguiu sempre igual.

    Estou com 31 anos agora. E faz muito tempo que não vou à praia no sentido depilação cavada da coisa (ou seja lá o nome que tem aquele procedimento que cobre de cera fervente até seus pequenos lábios e arranca não só os pelos mas também a sua vontade de viver). Meu contato com a costa do continente nos últimos anos se resume em

  • Crônicas,  Vida e Carreira

    Um ovo de verdade

    Estamos às vésperas da páscoa e este ovo não é de chocolate. É um ovo de verdade. E ele é de verdade porque este post é um lembrete para mim mesma.

     

    casabaunilhapascoa2016

     

    Desde que comecei minha busca por viver com menos e de forma simples, tento imprimir este conceito em todos os aspectos da vida.

    Então, aproveitando que a páscoa está por vir e que o preço do chocolate está INCRÍVEL – no sentido de que não podemos crer que ele está acontecendo – preciso lembrar do valor e do prazer que é comer comida de verdade e tentar