• Crônicas,  Vida e Carreira

    O processo que inventei para lidar com a minha ansiedade

    Adoro a frase do Jordan B. Peterson: a vida não tem o problema. Você tem. Tira um peso das minhas costas. Porque se o problema fosse da vida, nada poderia fazer. Porém, como ele é meu, então posso fazer algo a respeito. Ou seja, está em nós a origem de nossa “questã” e, por isso, habita em nós mesmos a resolução. Eu não estou dizendo, de forma alguma, que não devemos procurar ajuda. Escrevo sobre isso porque é incrível a habilidade que o ser humano tem de criar os próprios caminhos para lidar melhor com determinadas situações.

    Não chego a encher uma mão, mas já tive alguns episódios de ansiedade. Quando centenas de ideias passam pela minha cabeça, praticamente na velocidade da luz, e o coração acelera e vou contraindo os músculos dos meus ombros, como se abraçassem meu pescoço, percebo que a ansiedade chegou, aquela visita indesejada, e que é hora de botá-la pra correr. É hora de agir, de forma imediata e pontualmente.

  • Crônicas,  Vida e Carreira

    Por que temos que nos preocupar com o futuro?

    Assistir a um filme foi a sugestão do meu marido. Escolheu um espanhol, na Netflix. Parecia promissor. Mas não demorou muito para eu me distrair com a barba dele e a busca por pequenos cravinhos na pele. Atitudes que filmes-pouca-coisa despertam em mim. Limpeza de pele finalizada, me esforcei para concluir a sessão.

    A sensação que eu tinha era de assistir a uma daquelas comédias para a família brasileira que juntam uma porção de atores-celebridade em uma tremenda confusão. Nada contra, uma vez que esse tipo de filme é totalmente eficaz para manter os membros do clã unidos em torno de um balde de pipoca – unidos por causa da pipoca – com a boca ocupada sem poder proferir frases desencadeadoras de crises. Toda família tem as suas frases, não vem que não tem.

  • Crônicas,  Vida e Carreira

    Sobre o filme Parasita, o público, a babaquice e os diferentes tipos de humor

    Vou direto ao ponto: embora o filme Parasita seja muito bom como obra audiovisual, a minha experiência durante a sessão de cinema foi péssima. Minha e dos noventa e cinco por cento restantes.

    O filme definitivamente não é uma comédia. Ele é tenso, muito tenso. Dá dor de barriga. E para conseguirmos sobreviver às duas horas e doze minutos de estômago nervoso, há determinados respiros de um certo humor, aquele humor ao qual a gente reage com um “putz!” e não como se estivesse assistindo às trapalhadas do Didi Mocó.

    Pois na fileira atrás da minha, além de pisotear as cadeiras em frente, um cidadão e sua trupe gargalhavam de forma gratuita, a todo volume e até não poder mais. A enchente invadindo a casa da família miserável e lá vinha a risada Didi Mocó. O marido inicia preliminares com a esposa e, novamente, risadas de Didi Mocó.

  • Crônicas,  Vida e Carreira

    Reflexões a partir da exposição Digo de onde venho, de Mariza Carpes, no MARGS

    Sou diretora de arte publicitária, trabalho com design gráfico e também faço cerâmica. Para mim, a questão visual pesa muito, seja de um cachorro-quente ou de um filme. Pois o primeiro impacto que tive quando adentrei a exposição Digo de onde venho, de Mariza Carpes, foi o quão bonito e coerente estava o espaço, ou melhor, os espaços, pois a obra ocupa duas salas do MARGS. As cores escolhidas são muito agradáveis e sóbrias, a iluminação aconchegante e as centenas de itens eram organizadas magistralmente. Adoro exposições de arte que me fazem querer ficar por ali um bom tempo ou, ainda, perder a noção do tempo.

    Perceber a estética visual ao redor aconteceu em um milésimo de segundo, seguido de um outro milésimo de segundo de “olha todos esses objetos, parece a minha casa!”.

    Nesse momento, queria muito abraçar Mariza, dizer a ela “obrigada, você me entende”. E para você entender porque senti isso, precisamos entender a exposição de Mariza.

  • Crônicas,  Vida e Carreira

    Eu só queria um ventilador retrô

    Finalmente compramos um ar condicionado. Planejávamos como encobrir os fios e a tubulação enquanto deitados, no escuro, com dificuldade para pegar no sono. Concluímos que numa noite como aquela, de temperatura amena, não ligaríamos o aparelho novo, ficando somente com o ventilador ligado, como estávamos naquela madrugada.

    Disse que, se fosse ter um uso moderado, então compraria um ventilador daqueles de estilo retrô. O que me fez lembrar da diferença entre retrô e vintage, que o retrô são peças feitas hoje que queriam ser como as do passado, e que o vintage são as próprias peças do passado. O que me fez lembrar da época dos anos 1980 e 1990, que me são muito especiais e que, na minha cabeça, estão há poucos anos de distância, até me dar conta que houve todo o ano 2000 e que o 2010 também já se esfarelou.

    O que me fez pensar que um dia será 2080. E que pessoas nascidas em 2085 crescerão, e que quando atingirem uns 30 anos, lembrarão das brincadeiras da infância e das roupas escalafobéticas que usavam e que o mais bizarro, inclusive, era que estas mesmas roupas tinham voltado à moda. Então a pessoa começaria o papo assim: lembra daquele brinquedo dos anos 80?, ao que seu interlocutor jamais responderia: que anos 80? os dos 1980 ou os dos 2080? Ele automaticamente saberia que estavam falando dos anos 2080.

  • Crônicas,  Vida e Carreira

    Você é a sua melhor versão quando viaja?

    Li esta frase em um texto da Gaía Passarelli que, por sua vez, ouviu de um escritor de viagens: você é a sua melhor versão quando viaja? E ficou ecoando em mim. Nunca tinha pensado sobre isso. Simplesmente viajava.

    Então, passei a refletir sobre. Percebi que a questão toda já começa no fazer as malas. Fazemos as malas querendo ser outra pessoa. A Ellen DeGeneres, em seu último stand up, Relatable, do Netflix, falou em “uma personalidade fantasiosa que temos quando viajamos”. Uma pessoa que lê três livros em menos de uma semana, por exemplo. Quem nunca? Já levei quilos de leitura de que não senti nem o cheiro. A fantasia contagia até o jeito de nos vestirmos. Já montei mala para uma Juciéli muito a fim de usar um macacão como nunca antes visto. Já organizei nécessaire recheada de artefatos para prender um cabelo que é dono de si e que está sempre ao sabor do vento e da poluição. Não duro muito tempo com meu cabelo preso e ajeitado. Preciso passar a mão nos fios e transferir tudo que a vida depositou nela nas últimas horas.

  • Crônicas,  Vida e Carreira

    Quando o personagem sabe que é um personagem

    Há tempos noto a presença de uma piada específica nos filmes de comédia brasileiros: em que o próprio personagem se vê como personagem e tem consciência de que está rodando um filme. No Vai Que Cola o Filme, que passou recentemente na TV, Valdomiro dá uma rasteira no coadjuvante, derrubando este e justificando que queria ficar sozinho na tela do cinema. Em outro momento, enquanto o celular toca ele diz que vai começar a “traminha” do filme.  E quando se disfarça de mulher para passar pela portaria do prédio sem ser reconhecido, devido aos seus trambiques ilegais, outro personagem brinca dizendo que ele é muito melhor atriz que ator.

  • Crônicas,  Vida e Carreira

    4 hábitos que pratiquei em 2019 que seguirão para além de 2020

    Aqui seguem quatro ações que já estão completamente inseridas na minha vida, que tomaram força em 2019 e que provavelmente continuarão fazendo todo o sentido mais para frente. De cabelo à política, de leitura à camiseta do índio que já anda sozinha.

     

    1. Parei com as mechas

    Longe de mim julgar, sob a experiência dos meus trinta e quatro anos, uma escolha feita aos vinte. Seria uma injustiça total mas a justificativa para fazer mechas no cabelo era a de iluminar, tirá-lo da mesmice. Tanto é que nunca me considerei loira, uma vez que apenas “dava uma iluminada nos fios”. Meu cabelo era bem mais jovem, bem mais hidratado e eu ainda descoloria apenas uma vez ao ano. Então o resultado era ótimo, similar ao natural. Só que há tempos meu cabelo não recebe muito bem o processo da descoloração e há algum tempo venho me questionando por que insistia em clarear. E se meu cabelo já não se anima mais com uma iluminada, de minha parte não há vontade, nem tempo

  • Crônicas,  Vida e Carreira

    Linda é a mãe

     

    Faz tanto tempo que quero escrever sobre isso. Desde os meus, talvez, sete anos. Pois é, eu sei, uma menina, no início dos anos noventa, não pensaria que precisa exorcizar um problema escrevendo publicamente sobre ele. Mas digamos que sim porque na tenra idade eu já me sentia muito incomodada com isso.

    Era a festa do meu aniversário e meu pai tinha uma filmadora portátil que generosamente me deixava manusear. Lá pelas tantas, tive a brilhante – e, mais tarde, revelando-se fatídica – ideia de pedir aos convidados que dissessem uma mensagem à aniversariante, gravada por mim, claro.

    O primeiro convidado disse que eu era uma menina muito linda. O segundo falou da minha beleza. O terceiro contou que me achava muito bonita. O quarto: “ela é linda”. E assim por diante.

    Visualizem uma criança, um ser com ralos conhecimentos de vida, entristecida com elogios como esses, uníssonos, a ponto de uma adulta nunca ter esquecido. As crianças percebem e sentem, sim. E algumas experiências conseguem se perpetuar nas caixas pretas do nosso inconsciente porque também são reforçadas por novas, reunindo e calcificando as tristezas por semelhança.

  • Crônicas,  Vida e Carreira

    Quanto os comentários negativos nas redes influenciam as tuas escolhas?

    Isso deve acontecer com muitos de vocês também: estabelecer uma relação com um lugar antes mesmo de conhecê-lo pessoalmente. Assim aconteceu com o Z Deli. Assistimos a um programa em que o dono da rede não somente explicou sobre a origem do negócio como também mostrou como era feito o famoso pastrami. Ali teve início uma relação com o restaurante que o fez entrar para a nossa lista de lugares onde queríamos comer em São Paulo.

    Pois já na cidade, procurando pelo endereço para nos programarmos para sair, vimos vários comentários negativos sobre o estabelecimento. Vários não, muitos. Que o ponto da carne vinha errado, que o atendimento não era legal, entre vários outros aspectos. Confesso que ficamos balançados pois não é um lanche que sairia por dez pilas. É um bom dinheiro investido numa refeição e ninguém quer jogar dinheiro fora. Ficou um clima de desistência no ar até que batemos o martelo: não tínhamos idealizado uma refeição e chegado até Sampa para desistirmos. Decidimos que atestaríamos por nós mesmos qual era dessa experiência. E foi maravilhosa. Não sei pra vocês mas, pra mim, considerar bom um restaurante não depende somente da comida em si mas, também, da experiência como um todo.