DECORAÇÃO,  Reformar

Como pintar a porta do teu apê antigo

Se tem um design de porta que podemos chamar de tradicional, uma vez que é encontrado em nove entre dez apartamentos antigos, é o que apresenta baixos-relevos entalhados na madeira – entre cinco e seis – com chanfros. É o caso da minha porta e, também, da porta da casa do Chris.

 

A tranquilidade no olhar da Rochelle, cujo marido tem dois empregos. A princípio, não há regras para pintarmos portas. Não há uma lei que te proíba de seguir com o pincel na direção que bem entender.

Porém, estabelecer um planejamento de pintura evita que a gente esqueça de algumas partes ou, ainda, que pintemos uma área por demais. O que gera tempos de secagem diferentes, manchas e uma preocupação em cobrir essas diferenças a cada demão, o que aumenta o número de demãos. De difícil já temos o lençol de elástico para dobrar então não façamos da pintura da nossa porta de entrada magnífica uma pedra no sapato.

 

Olha só este antes e depois, eu simplesmente adorei. Pintei primeiro as paredes de branco, que estavam com o mesmo cinza do espelho da porta. Para pequenos espaços, unificar porta e paredes em uma cor só dá a sensação de um cômodo maior.

A seguir, compartilho o planejamento de pintura que estabeleci para pintar a porta do meu apê antigo, construído nos anos 1960. Antes eu ainda mostro alguns passos essenciais para a pintura ficar nos trinques, como a preparação e os materiais necessários. Ao final, também escrevi uma lista de conhecimentos básicos sobre pintura, para quem ainda não tem muita estrada nessa vida de reformas.

 

MATERIAIS

1. Tinta: Use tinta própria para madeira. Ela costuma ficar mais brilhante que a parede (se na parede tivermos aplicado uma tinta fosca, claro). A tinta para madeira, quando seca, lembra uma película plástica. Por isso o brilho.

2. Ferramentas: Um rolo pequeno de pelo sintético e macio para as áreas maiores e um pincel estreito para os cantos e acabamentos.

Rolinho e pincel.

Por que não pintar tudo com o pincel? Porque você dará pincelada sobre pincelada e, dessa forma, irá arrastar a tinta da pincelada anterior. Isso deixa marcas, áreas com menos tinta e outras com mais. O rolo permite que você deposite a tinta em vez de arrastá-la, fazendo uma pintura homogênea em toda a superfície.

Uma confissão: eu ainda tenho um pincel bem fininho que uso para acabamentos meticulosos. A diretora de arte em mim adora sentar no chão e ficar contornando fechaduras, cantinhos, bordas, olho mágico, ouvindo Tame Impala. Fica a teu critério.

3. Protegendo a área. Confesso que só larguei em frente à porta uma lona plástica. Mas conforme me movimentava, ela saía do lugar. Só que não me preocupei muito. Quanto mais pinturas fazemos em casa, menos nos preocupamos com respingos e manchas. Vamos pegando o jeito. Tanto é que nem usei fita isolante para cobrir a parede ao redor da porta. A motricidade fina se encarregou para que o pincel não escapasse. Mas se você não estiver seguro ou for do time dos estabanados, fixe a lona com fita no chão e aplique fita isolante na parede ao redor da porta. Você relaxa e consegue pintar sem receios. O que não deixo de isolar são objetos próximos que podem acabar pintados, como meu interfone. É só passar a fita isolante na parte que fica voltada para a porta e pronto.

“Mas minhas paredes são brancas e pintarei a porta de branco também. Preciso isolar mesmo assim?” Depende de quanta lambança você pode fazer e do quão ligado aos detalhes você é. A tinta para madeira brilha mais que a da parede. Se o pincel escapar para a parede e dependendo de como a luz do ambiente incide sobre a área, ficará vendo aquele risco brilhando sobre a parede pra sempre. Tenho um risco desse no meu quarto, então cuido bastante para não sobrepor as tintas. Outra questão: há uma infinidade de tons de branco. O branco da porta pode ser mais vivo e branquelo que o da parede, este podendo ir para o off-white, ainda mais se a parede tiver sido pintada há tempos, acumulando sujeira, pó, gordura. Isolar a área ou ser cuidadoso é preciso.

4. Um banquinho é de grande ajuda para alcançar todas as partes da porta.

5. Se tu és alérgico, vale usar luvas e máscara. Aproveitei o momento e usei a máscara da pandemia para não inalar tanto cheiro.

 

PREPARAÇÃO

1. Lixamento: não precisa lixar a porta como se fosse um marceneiro profissional que quer chegar no útero da madeira. Lixe apenas o que você não gostaria de ficar olhando: relevo de tinta escorrida da última pintura, farpas e outros volumes indesejados na madeira – como aquele fio de cabelo que ficou grudado da última pintura ; )

2. Acabamento a gosto: há quem preencha buracos, cortes e outras profundezas com massa mas, particularmente, acho uma heresia com o material natural. Tempos atrás, tentei retirar a tinta da porta com aquele striptease para deixar na madeira crua mas foi inútil. A pintura da porta era muito velha, dos anos 1960. Desisti. Só que o processo deixou altos e baixos na cobertura da porta. E nem por isso quis aplicar massa para nivelar. A pintura que mostro agora foi aplicada direto sobre essas nuances de relevo. E ficou ótimo igual.

3. Limpeza: Com uma escova de dentes (velha, pelamor) retire o pó dos cantos do baixo relevo. Já próximo da maçaneta e das fechaduras de segurança pode haver acúmulo de gordura da nossa pele. Limpe coma parte mais abrasiva de uma esponja de louça e um pinguinho de detergente. Com um pano levemente úmido, limpe a porta toda. Não esqueça da parte superior do espelho da porta, onde acumula muita poeira. E não é porque a vista não alcança que tu não vais limpar. Tinta fresca e sujeira são inimigas mortais. Ah, depois que limpar, espere secar bem, ou acelere o processo passando um pano limpo e seco.

4. Leia o rótulo e siga as instruções do fabricante da tinta. É na embalagem que encontramos, por exemplo, o tempo de espera entre demãos, informação fundamental.

 

DICA DE OURO: Coloco a bandeja dentro de uma sacola de mercado, assento bem o plástico nos cantos e despejo a tinta. Depois de acabar é só retirar e a bandeja estará pronta para outra. Não esqueça de virar a sacola ao contrário para a impressão dela não sair na tinta, isso já me aconteceu.

 

PLANEJAMENTO

1. Contorno. Com o pincel estreito, aplique a tinta no contorno e cantos do baixo relevo. Passe, também, em um pouco da superfície ao redor, dentro e na parte alta, como na foto:

 

2. Dentro. Passe o rolo dentro desta área delimitada, chegando bem perto das bordas e cantos. Assim, o rolo passará por cima do contorno que o pincel já pintou e isso não deixará falhas. A largura do meu rolo permitiu que eu pintasse a parte interna em 3 faixas horizontais.

 

3. Repita ambos os processos em todos os baixos-relevos da porta, como mostrado na foto:

 

4. Sobras. Agora passe o rolo nas partes que sobraram, as partes altas, incluindo o espelho da porta. Só não pinte a parte de baixo, que fica próxima ao chão.

 

5. Embaixo. Quando chegar na parte de baixo, próxima ao chão, pinte primeiro com o pincel estreito de baixo para cima. Depois, sim, com o rolo na horizontal.

Você até pode fazer direto com o rolo na horizontal, desde que isole bem o chão pois o rolo irá esfregar no piso (por isso prefiro movimentos verticais com o pincel nesta área pois tenho mais controle). Cuide para não acumular tinta entre o chão e a porta – naqueles míseros milímetros –, pois quando secar, na hora em que for movimentar a porta a tinta pode puxar e rasgar – lembra que ela se comporta como uma película plástica quando seca? Então, se quiser passar o rolo direto, veja se não ficou tinta acumulada entre o piso e a porta. Uma dica é passar uma folha de papel ou algum objeto fino que rompa a ligação da tinta. Mas faça isso assim que pintar.

Movimentos verticais, de baixo para cima ao pintar a parte baixa da porta.

 

DEMÃOS: Duas demãos foram suficientes para cobrir o amarelado antigo que tinha na porta. Porém, como o espelho da porta tinha o mesmo cinza que cobria as paredes, foram necessárias de 3 a 4 demãos nele.

FIQUE DE OLHO: Depois de passar o pincel ou o rolo, não abandone a área visualmente. Fique de olho nela porque a gravidade irá puxar a tinta que ficou acumulada, onde você carregou mais. Passe o pincel ou rolo novamente. Caso contrário, o escorrido secará e ficará ali.

Tinta acumulada que precisa ser melhor espalhada. Uma pincelada por cima resolve, quando o pincel estiver com menos tinta.

DETALHE: Fica a teu critério pintar as fechaduras de segurança e a maçaneta. As minha já estavam pintadas. A ideia original era retirar a tinta e deixar no metal, só que apareceu uma camada dourada escandalosamente brilhosa e fiquei com receio de ser um metal pesado ou outra substância não legal para o organismo. Depois pensei que seria o máximo retirar todos os metais e pintar de preto fosco, com tinta spray, fazendo contraste com a porta branca. Mas me deu preguiça. Pintei os metais de branco também e, no fim, achei ótimo. Mimetizou tudo.

 

CONHECIMENTOS BÁSICOS PARA PINTURA

• Compre tinta à base de água e sem cheiro – embora elas ainda apresentarem cheiro.

• Quanto mais clara a cor, menos COVs ela gera – dá um Google.

• Ler as instruções da embalagem é obrigatório. Até para você decidir quais regras quebrar.

• Como esta: para a pintura de porta, ou seja, de uma pequena área, não diluí a tinta em água, o que implica menos demãos.

• Não coloque muita tinta na bandeja, vá aos poucos.

• Limpe com o pincel a parte da lata onde acumulou e escorreu a tinta. Na verdade, seja rápido e não deixe escorrer. Mas é fundamental que retire a tinta que fica acumulada na borda para conseguir fechar a lata. Acho, inclusive, que é uma instrução presente na embalagem. Leia as instruções do fabricante!

• Não afunde o rolo na tinta. Vá aos poucos. Encoste na tinta (com o rolo na horizontal) e role sobre a área plana da bandeja para a tinta pegar em todo o rolo e, também, para retirar o excesso. Se sentir necessidade, volte a molhar na tinta e depois role o rolo na bandeja novamente. Isso também evita acumular e escorrer a tinta na porta.

• Idem com o pincel. Não afunde o pincel na bandeja. Mergulhe cerca de 01 a 02 centímetros e ainda retire o excesso na borda da bandeja (na área onde fica a tinta, claro). Isso evita que respingue no piso, nos móveis, na parede, em você. Por isso, com a prática, pegando a tinta aos poucos, fazemos menos sujeira e usamos menos material para isolar a área, o que torna a pintura um bicho de menos cabeças. Isso também evita acumular e escorrer a tinta na porta.

• Com o tempo, você irá entender o quanto de tinta precisa no rolo e no pincel. Então comece aos poucos.

• Não aperte muito o rolo contra a superfície. Isso fará o rolo travar em vez de rolar, e a tinta será arrastada em vez de depositada. Você entenderá na prática. Há rolos que você compra e eles simplesmente não rolam direito, travam e isso é de dar nos nervos. Mas respire e volte a passar o rolo sobre a tinta “arrastada” para dar o acabamento padrão de tinta depositada.

• Mantenha o pincel e o rolo dentro de um pote com água entre as demãos. Caso contrário, a tinta seca e soltará pedaços na bandeja e/ou na porta, além das cerdas do pincel endurecerem, perdendo a flexibilidade e o desempenho. Talvez você precise trocar a sacolinha da bandeja também. “Mas ainda tem tinta na bandeja”. De novo: coloque a tinta aos poucos na bandeja. Assim não há desperdício.

 

 

E mãos à obra. Vamos deixar nossa casa cada vez mais aconchegante para nos sentirmos bem mesmo estando isolados e nos protegermos – já que estamos isolados ; )

Fotos (exceto a da série) e texto de minha autoria, Juciéli Botton, para a Casa Baunilha. | Foto da série Todo Mundo Odeia o Chris: Reprodução

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