Florianópolis,  Por aí,  Santa Catarina

Praia Daniela sob a sombra | Floripa

Se eu consegui escrever um texto sobre a poesia visual e a beleza do mar chocolate das praias do sul (leia aqui), nada, mas nada mesmo me impediria de registrar as impressões sobre uma praia quase sem ninguém em dia nublado na ilha de Florianópolis.

Em maio deste ano, a Praia Daniela estava no meu roteiro e, nele, também faria sol, o mar estaria calmo e a água de coco e o milho verde seriam liberados. Mas sabe como é a criação de um roteiro, tem sempre um cara acima de você barrando as coisas, o produtor.

 

 

Eu sempre registro essa vista de quase chegada a uma praia. Adoro a moldura que as plantas fazem e a paisagem que se revela aos poucos. As várias camadas dos morros em frente, após o mar, sob a névoa, deixam a cena mais dramática ainda –  e mais bonita. Meu longa não tinha verba pra dia de sol e open bar de água de coco mas tinha para aroma de chá nesta pequena trilha que dá acesso à Daniela. Nesta praia, o verde nativo que habita as areias da beira mar foi preservado. É preciso estacionar na rua que antecede o mato e acessar a praia por essas trilhas. Esta que o destino nos ofereceu tinha um cheiro de chá muito forte. Uma mistura deles. A verdade é que eu levei um tempo até chegar na praia porque o cheiro estava incrível. Todo mundo diz que eu tenho um super nariz, mas a verdade é que as pessoas esquecem de respirar às vezes.

 

É possível enquadrar a trilha toda em uma foto.

 

 

No meu roteiro, eu caminhava até o pontal e ficava cercada pela água e por paisagens vindas de todos os lados. Mas daí o casal lá adiante desistiu e voltou e nós continuamos. Um silêncio humano retumbante, o barulho agitado das águas, a luz baixa, o vento, as aves que rondavam, a solidão e a amplidão, tudo isso começou a vir pra cima de mim com uma força. A cena era, ao mesmo tempo sedutora e alarmante. E quando o alarme dentro do ser humano toca, ele não deve ser ignorado, jamais. Voltei para o meu caminho de chá e para o carro e para as ruas abandonadas da Daniela, o que não diminuiu meu medo.

 

Aqui foi até onde conseguimos ir. Aqui já estávamos com o ponteiro do medo entrando em colapso (medo que carregamos pra onde quer que a gente vá, só por sermos porto-alegrenses). No horizonte, a parte continental. A porção de terra e mata isolada à esquerda é a Ilha do Ratón Grande.

 

 

Não pude ir embora sem antes registrar que fiquei espantada com tanto lixo. Não havia gente na praia como um todo, as ruas pareciam cenário do The Walking Dead, mas os vestígios estavam todos lá, na areia, na “área de preservação permanente” como diz a placa do início da trilha.

 

Impossível os olhos não estacionarem no balão vermelho. Você está escaneando a paisagem, mato-casinha-mato-casinha, só que na verdade é mato-BALÃO VERMELHO-casinha-BALÃO VERMELHO. É como estar lendo um livro ao ar livre e uma pomba cagar na página. Desculpa gente, mas é o que o lixo significa numa paisagem.

 

A área verde que fica à beira mar, vista da rua.

 

Uma residência coloria a paisagem, num raríssimo e brevíssimo momento de raio de sol.

 

Eu adorei que as ruas têm nomes de flores e árvores. Porém, não tinha nenhuma dália na Rua das Dálias. Eu amo dálias.

 

Árvores carregadas por este fruto que não é Araçá. Descobri comendo um e parando no posto de saúde mais próximo que, no caso, era na praia brincadeira, gente! Eu perguntei, claro, para a única transeunte que encontrei. Mas bem que podiam ser araçás gigantes. Neste caso, eu ia parar no posto de tanto comer.

 

 

Pelas ruas vazias de Daniela, castelos e chalés.

 

 

De repente, a trama toma um novo rumo graças a uma verba que entrou em cima da hora e então pudemos incluir o sol! O que nos leva ao segundo ato, digo, post dedicado à Praia Daniela, agora “sob o sol”. Em breve.

 

Ai, esse chalé. Tem até um cisne no quintal. Tô vendo ele ali ó, no gramado.

 

Fotos e texto: Juciéli Botton para Casa Baunilha

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