Florianópolis,  Por aí,  Santa Catarina

Eu e o meu pântano, meu pântano e eu

Sou como o personagem do meu desenho computadorizado favorito, o Shrek: só quero saber de ficar sossegada no meu pântano. Sou encantada pelo sul da ilha de Florianópolis: praias tranquilas, algumas de difícil acesso e, por isso, de natureza intocada, comunidades de pescadores artesanais, trilhas, comida fresca, paisagens bucólicas, estilo de vida inspirador. E nesse pedaço de paraíso o meu canto é o Pântano do Sul. É onde jogo minha âncora nas férias e que, ao mesmo tempo, proporciona experiências incríveis em vários pontos da região.

Pântano do sul é a mais tradicional colônia de pescadores de Santa Catarina e um pacato distrito de Florianópolis. Lá ouvimos as crianças brincando na escola e as festas no salão da igreja. Vemos a movimentação dos pescadores, as aves mergulhando atrás de peixes, os manezinhos da ilha convivendo com turistas como se fossem da mesma família, os trilheiros de mochila e tênis rasgado. À noite, a uma quadra do mar, já não ouvimos o barulho das águas de tão calmas. Mas é só o vento sul fazer presença que o mar parece bater na porta de casa. Em dia chuvoso, então, os morros cobertos pelo verde vivo da mata simplesmente desaparecem.

Gosto de praia pela natureza, que tem o poder de lavar a minha alma e deixar meu espírito leve. E as trilhas são perfeitas para isso. Percorrê-las é como um rito de passagem, de purificação, e as do sul da ilha são sensacionais, seja pela natureza, pela experiência ou pelos destinos.

Tem a da Lagoinha do Leste que leva a essa praia de visual paradisíaco. Por ser a mais voltada para o leste, de Florianópolis, é a primeira a sofrer com os eventos naturais, resultando em ondas perigosas. Apelidei o mar dali de máquina de lavar roupas. Há uma lagoa que dá nome à praia e também o Morro da Coroa.

A Trilha de Naufragados é única, de vegetação que nos faz sentir dentro de uma floresta mesmo, com árvores gigantescas e bastante umidade. Durante o trajeto podemos contemplar construções antigas, incluindo as ruínas de um moinho de cana e trigo, todo em pedra. Na praia há pontos históricos, como um farol e canhões, abandonados. Praia mais ao sul da ilha, de lá podemos avistar a Praia da Pinheira e Garopaba.

Já a Trilha do Saquinho é um passeio à parte por ser toda calçada em concreto. Há trechos de tirar o fôlego pela beleza da paisagem pois ficam expostos ao mar aberto, às ilhas e praias de Pântano do Sul.

Trilha para a Praia do Saquinho

A Praia do Saquinho é, como dizem na minha terra, louca de especial. Dependendo da hora em que se chega, podemos ser os únicos por lá. Pequena em extensão, é daquelas em que gosto de tomar banho de mar com um olho no oceano e o outro contemplando as rochas sobre a areia e a vegetação que se cria sobre elas. É paradisíaco. Mas todo cuidado é pouco: não há salva-vidas e noto um parentesco com a Lagoinha do Leste em suas águas um pouco furiosas. O negócio é dar selinho no mar, digo, tomar banho na beirinha.

Aliás, praias interessantes não faltam por perto, como a Praia da Armação, também chamada e pintada nos barcos dos pescadores como Armação do Pântano do Sul. O Restaurante da Adriana é muito bom, à beira-mar, do mirante observamos as baleias na época de terem seus filhotes e do trapiche saem barcos para a Ilha do Campeche, em que os pescadores te levam ao som de Balança a Pema, na voz da Marisa Monte. A Praia do Matadeiro fica ao lado da Armação, acessada por uma trilha bem movimentada. Tudo isso fica acima do Pântano do Sul.

A própria praia de Pântano do Sul, perto do costão, é especial porque as águas são tranquilas. Gosto de ficar depois da rebentação conversando. A gente se refresca e bota o papo em dia ao mesmo tempo, enquanto observa as belezas em torno, os morros cobertos de mata, as ilhas Três Irmãs, as casinhas no costão, os barcos de pesca de madeira e coloridos, mexendo conforme o movimento das águas.

Já na própria continuação da faixa de areia do Pântano do Sul tem a Praia dos Açores e sua ausência de construções e quiosques na beira da praia. A restinga nativa e as dunas é que protagonizam na paisagem. Mas da areia vemos despontar os prédios do loteamento logo atrás. Quem caminha do Pântano até Açores pela areia percebe a mudança do mar, que vai ganhando mais ondas.

Descendo um pouco mais vem a Praia da Solidão, onde cheguei na região pela primeira vez e conheci o Pântano, em um dia chuvoso. Quando a gente se apaixona por uma praia em dia de chuva é porque deu match. É na Solidão que tem início a Trilha do Saquinho e a da Cachoeira da Solidão. Logo adiante vem a Praia do Rio das Pacas.

E nem só de trilhas e praias vive o Pântano. A gastronomia é um ponto forte e, nesse quesito, o que eu adoro é que se trata de uma pequena colônia de pescadores com uma concentração de bares e restaurantes à beira-mar que ultrapassa, em extensão, a área de povoamento – não contando com a do costão. São muitas opções e os pratos são preparados com o pescado dali mesmo, então a comida é fresca e bem diversificada. Li em algum lugar que Pântano do Sul tem uma variedade incrível de peixes.

Almoço no Bar do Vadinho

O Bar do Vadinho, por exemplo, serve 3 variedades no seu único prato. E elas podem mudar de acordo com o que o mar oferecer. Peixe Espada, Gordinho e Arraia desfiada, que dá corpo ao prato – sensacional – chamado “estopa”, são alguns dos peixes. O pirão é maravilhoso e o horário para chegar é antes do meio dia, senão, esquece. R$ 54,00 por pessoa, com reposição de qualquer item.

Se quiser mais opções de pratos, o Arante oferece de moqueca bem servida a iscas de espadinha com um molho especial, e tudo podendo ser saboreado com o pé na areia ou no espaço interno, admirando os bilhetinhos deixados pelos clientes, colados do chão ao teto. Toca um repertório singular com canções sobre as praias da ilha. Em 2018 fiz uma publicação sobre o bar, clique aqui para conferir.

Arante Bar e Restaurante – É verdade esses bilhetes.

Há muitos restaurantes especiais como o Mandala, o Pedacinho do Céu e tantos outrosum para cada dia.

Se eu já tinha o costume de cozinhar durante as férias, em Pântano do Sul é um prazer só. Quando viajamos de carro, dependendo do destino, levamos nossas panelas e utensílios preferidos. Panela de pressão é item certo na “mala” para cozinhar a sardinha fresca, por exemplo. E assim a gente vai alternando entre preparar a comida caseira feita com os pescados frescos e aproveitar a gastronomia dos bares e restaurantes.

E como se não bastasse esse tanto de gastronomia no sul da ilha, ainda temos o Ribeirão da Ilha que dispensa apresentações. Paraíso das ostras e de tudo mais que envolve frutos do mar. Construções antigas de arquitetura típica açoreana, lugar calmo e tranquilo. Saborear um prato de frente para a Baía Sul, tendo o continente no horizonte, ao som das pequeninas ondas que chegam à areia é uma experiência e tanto, digna de férias.

E férias precisam ter aqueles dias em que fico apenas na areia, na calmaria, sem nada para fazer. Ou apenas tentando visualizar a Chata, a embarcação naufragada há 68 anos em Pântano do Sul, apelidada assim pelos antigos devido à característica da sua parte traseira. Um pedaço dela emerge ao anoitecer, durante a maré baixa. Ou se insinua durante o dia. Adoro procurar por ela enquanto fico na areia. Se quiser saber mais curiosidades sobre a embarcação, clique aqui para assistir a uma reportagem do jornal local.

Uma outra peculiaridade do Pântano é a porção de estrada de chão do caminho que nos leva até a Trilha de Naufragados, a Estrada Francisco Thomas dos Santos. Paisagens bucólicas, fazendas, construções antigas e morros cobertos por um mato verde que mais parece um tapete, árvores que parecem entidades de tão grandes, vistas incríveis como a que une a Lagoa do Peri e o mar, além de cachaçarias.

Estrada Francisco Thomas dos Santos. É a roça da praia!

Dificilmente passo com pressa por lugares assim, então consigo apreciar de perto, descer do carro, sentir a energia do ambiente e fazer alguns registros.

E toda praia tranquila tem um cusco de estimação. O Faísca é o doguinho do Pântano, o caramelo de olhar profundo, que já sofreu muito e que parece não se abalar com mais nada. De pessoa em pessoa na areia ele recebe carinho.

São tantos detalhes que fazem do Pântano do Sul um lugar especial. Sobretudo as pessoas. Foi passeando por uma rua a fim de conferir as casas bonitas que conheci a Zenaide. Ela estava na janela e nos cumprimentamos: “Vocês da cidade grande geralmente não se cumprimentam, né?” E a partir daí a conversa só foi. Papo sobre as coisas que realmente importam na vida, sobre o que não vamos levar para “o outro lado”.

Acontece com vocês? Isso acontece muito comigo: conversas sobre assuntos profundos, os típicos papos existenciais, com pessoas que não conheço.

O Salésio, de moto pelas ruas, grita “olha o pão caseiro quentinho!” e a gente brota do nada e leva um para casa. Fica uma delícia com a maionese caseira que a gente faz com pedacinhos desfiados de peixe.

O pessoal prestativo da peixaria que sugere de receitas para preparar os pescados, mesmo as que eles nunca prepararam, o que gera boas risadas.

O simpático rapaz que vende os quitutes da Petit Padari no Bar do Vadinho, equilibrando uma enorme cesta de vime lotada de delícias como o bolo de paçoca, de massa molhada.

O Alan do Arante nos explicando sobre os barcos de pesca que vêm de fora e servindo aquela meia porção para dois bem caprichada. O Ricardo da praia de Naufragados, atencioso, contando as peculiaridades do local e muitas histórias.

A Isis, salva-vidas que faz uma baita trilha todos os dias para chegar à praia, nos explicou muitas coisas com uma simpatia ímpar e concluiu que selfie é mais perigoso que o próprio mar.

Os simpáticos gaúchos do estacionamento da trilha de Naufragados – inclusive, prometi levar um pacote de erva-mate na minha próxima vez. A generosidade do gaúcho Antônio Luis, da Praia da Armação, ao dedicar alguns minutos de um dia escaldante para conversar com a gente na calçada, sugerindo vários passeios.

E tanta gente mais que faz do sul da ilha de Florianópolis um lugar especial, da mesma forma que fizeram os homens dos sambaquis, que fazem da região um patrimônio arqueológico. Não há indicações e passeios oficiais de visitação a áreas dessa importância mas lembro de ter visto, no costão da Praia de Naufragados, pedras esculpidas pela atividade das comunidades dos primórdios da ilha.

Estou sempre à espera de viver tudo de novo no meu Pântano. E de viver o novo por lá também.

Fotos e texto de minha autoria, Juciéli Botton, para a Casa Baunilha.

Um Comentário

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *